A propósito do novo álbum da Utada, This Is The One, sobre o qual hei de escrever uma “pequena” opinião em breve, lembrei-me que seria boa ideia recuperar uma antiga opinião que escrevi sobre o seu álbum japonês do ano passado, Heart Station, e que estava perdida algures num blog também, por sinal, meio perdido. Deixo-vos portanto com uma coisa do passado que até vos pode dar muito jeito: lembrar-vos para ouvir esta pérola de imediato.
Enquanto a minha cópia do álbum não chega, já o ouvi mais de 9000 vezes, sabe-se lá como. Portanto, e para aproveitar o tempo livre das férias, here is the HEART STATION review-san!
Lançado hoje, dia 19 de Março, no Japão (na verdade já é dia 20 lá…), o tão publicitado 5º álbum de Hikaru Utada foi altamente bem criticado na Rolling Stone Japan, recebendo 5/5 estrelas e um título que o resume como: “A Essência da Música Pop”. Quase 2 anos depois do último álbum, Ultra Blue, este é um dos trabalhos mais divulgados e promovidos da cantora, havendo pelo menos 6 faixas que funcionam/funcionaram como tie-ins com séries de televisão, animes, anúncios, etc. Caso não se apercebam, isso funciona muito bem como impulsionador de vendas. Para juntar a isso, a comemoração dos 10 anos de carreira foi há bem pouco tempo e continua a decorrer.
O resultado de tudo isto? Ora, o primeiro lugar no Daily Ranking da Oricon com vendas que ultrapassam, de longe, os outros concorrentes todos. Mesmo que seja previsível, será que vale isso? Let’s see…
Começando por responder à pergunta, eu acho que vale.
É, provavelmente, o álbum mais alegre de toda a sua carreira. Mas não num sentido happy-go-lucky, mais num sentido descontraído e ao mesmo tempo profundo. Acaba por ser um resumo daquilo que ela já disse várias vezes em outras músicas: apesar dos infortúnios e tristezas da vida, não é motivo para se ficar deprimido ou para se fazerem músicas deprimentes. Enjoy the art of life, com tudo o que isso acarreta. É uma estação ligada ao coração, mais acolhedora e positiva. Como verão pelos nomes das músicas, a atitude aqui é “combater as tristezas”.
Como ela revelou numa entrevista, o título do álbum foi basicamente escolhido ao calhas. Deu-lhe o mesmo nome de um dos singles porque encaixava bem para classificar o tipo de música que o compõe, só isso. É simples e relaxado, como nos revela também a capa, que, àparte meu, tem a combinação de cores que mais me fascina desde há algum tempo: rosa e azul. Plágio!
01 - Fight the Blues
Este foi o último single a sair antes do álbum, apenas algumas semanas antes. Honestamente, acho que ela não podia ter escolhido abertura melhor, porque realmente reforça a temática que se vai encontrar ao longo do álbum e é uma faixa tão boa e agradável de se ouvir que funciona bem como aperitivo para o resto. Com sintetizadores a torto e a direito, tal como todas as outras faixas, tem uma batida forte de fundo que a torna bastante dançável. Talvez seja impressão minha, mas há certos sons na música que me lembram sonoridades indianas, existindo também na faixa Gentle Beast Interlude. Talvez não seja apenas uma coincidência!
É uma das minhas faixas favoritas, e, sem dúvida, a melhor de entre os 6 singles que constituem a primeira parte do álbum. Devo referir também, já que o divido em dois, que a estrutura das músicas nesta parte é bastante semelhante e tipicamente pop: bridge e refrão a dar com força.
02 - Heart Station
Esta música liga-se bastante à anterior em termos instrumentais, no entanto tem uma atitude mais calma e romântica. O refrão é das coisas mais relaxantes no álbum e a letra é das minhas favoritas, apesar de eu quase nunca ligar a letras. Tem a ver com tentar comunicar com alguém, tentar que alguém nos oiça e queira ouvir, utilizando várias metáforas ligadas ao mundo da rádio.
É também um dos pontos fortes do álbum e uma daquelas músicas que eu categorizo como puramente Utada. Desde o Ultra Blue até agora que ela tem desenvolvido ritmos, melodias e combinações de instrumentos que são cada vez mais (e apenas) dela. Um som que eu considero bastante futurista, na medida em que define, muito provavelmente, aquilo no qual a música pop se vai tornar um dia. Ou então sou apenas eu que sou um fanboy de sintetizadores!
03 - Beautiful World
E com a terceira faixa completa-se uma pseudo primeira parte da primeira parte… fiz-me entender? Bom, o que quero explicar é que estas 3 músicas seguidas apresentam algumas semelhanças, instrumentalmente falando. No entanto, aqui o piano e a batida abafada misturam-se para dar uma sonoridade ligeiramente hesitante, entre o alegre e o preocupado. Por alguma razão esta música foi feita a pensar no primeiro filme do Renewal de Evangelion.
Muito sinceramente, adoro ouvir estas 3 faixas de seguida, formam uma sequência muito agradável e caracterizam aquele que é o pop da cantora, com texturas etéreas (sim, agora está na moda dizer isto) e ao mesmo tempo dançáveis. E fale-se também da voz dela, que apresenta-se com uma (eu queria dizer “a mais”…) das mais trabalhadas e interessantes de todos os álbuns.
04 - Flavor of Life -Ballad Version-
Eu tenho de dizer que o refrão desta música é um vício de ouvir. Ainda me recordo quando, em Janeiro ou Fevereiro do ano passado, surgiu o preview e eu passei horas e horas com aquilo em loop. É, provavelmente, a faixa mais conhecida de todo o álbum, devido à ligação que teve com o dorama Hana Yori Dango 2. É também a música mais reminiscente aos 3 primeiros álbuns, apesar de eu a considerar como uma evolução que ultrapassa completamente. Uma melodia vocal complicada e interessante que provam, na minha opinião de pouco entendido, as capacidades da Utada que muitas vezes lhe são negadas. Se não me engano, e excluindo a Boku wa Kuma, é a única faixa composta inteiramente por instrumentos reais/tradicionais.
Reparem, mais uma vez, no título. O sabor da vida, é sobre isso mesmo que esta música e este álbum “falam”.
05 - Stay Gold
Utilizando a expressão recorrente, esta é a música mais etérea do álbum. O título refere a cor dourada, mas eu só consigo pensar em branco e mais branco quando oiço isto. É a música mais branca de sempre! É interessante o facto de ela ter ido buscar ritmos e batidas mais típicas do R’n’B e misturar de forma muito lenta com um piano e uma voz quase sussurrada. Na verdade, acho que o piano é a diferença fundamental aqui, pois se removido tornaria a música bastante normal. O trabalho vocal e os ad-libs no final também ajudam muito.
Eu gosto da música, mas não é das que oiço mais.
06 - Kiss & Cry
Beijar e chorar, o agradável e o desagradável! Eu devo dizer que esta música tem montanhas de semelhanças com a Amai Wana, faixa do primeiro álbum da Utada. Como se não bastasse, conta também com uma parte retirada da música Hotel Lobby, do álbum internacional Exodus, com letras diferentes e em japonês.
Tem também bastante piada que, por ser tie-in com o anime Freedom, que por sua vez é co-produzido pela Nissin, a letra da música inclua o produto Nissin Cup Noodles. Bem que ela podia ter retirado isso da música no álbum, pois assim eu não sei se estou a ouvir uma simples música ou um produto publicitário!
De qualquer forma, é uma música muito divertida e energética, como a referida Amai Wana. A nível vocal é muito interessante, com um refrão francamente bom. Apesar disso, não considero a música como boa por aí além. Quando comparada com a outra, fica em desvantagem. No entanto, parece-me que ao vivo num concerto tipo Utada United 2006 será triunfante.
07 - Gentle Beast Interlude
E chegamos à segunda parte do álbum. Como é habitual em todos os seus álbuns, excepto o primeiro, tem de haver uma faixa Interlude, uma divisão. Neste caso é das poucas vezes que aparece a meio. É… genial. O meu desejo é que ela um dia faça um álbum só com coisas destas. Eu comparo isto a um perfume, a um cheiro, a algo que não é físico, mas que é suposto fluir apenas (neste caso, pelos nossos ouvidos). Desnecessário será dizer… do want!
O final desta faixa faz ligação com o início da seguinte, portanto, pelo menos para mim, é impossível ouvir uma sem ouvir a outra a seguir.
08 - Celebrate
Esta música é tão Clazziquai Project meets m-flo. Uma sonoridade lounge, e ligeiramente retro, nunca antes ouvida pela cantora. Apesar de ser uma música apropriada para dançar num qualquer clube nocturno (possivelmente não em Portugal…), faz-me lembrar um bocado anisongs, não sei ao certo porquê. E ao mesmo tempo tem qualquer coisa de ocidental! Não reparem na minha indecisão.
De qualquer forma, há uma coisa que eu adoro nesta música e isso é a voz da Utada. Tanto relaxada e sexy, como mais agressiva (Sexy Lady!). O refrão é também muito bom e os “violinos” sintetizados ao longo da música funcionam como “apaziguadores” de um som puramente dance.
09 - Prisoner of Love
Esta faixa representa mais um “regresso” às origens. Piano e batida pesada, tipicamente R’n’B, conta também com um acompanhamento de cordas muito interessante (de vez em quando também é bom ouvirem-se instrumentos tradicionais!). Há quem classifique esta música como balada (inclusivamente a própria Utada referiu isso), mas eu não vejo aqui grande coisa disso… possivelmente a nível vocal, só.
A início a música não me cativou muito, mas entretanto já passou a fazer parte das favoritas. Talvez por me recordar um bocado do álbum Deep River. No entanto, o que reparei logo da primeira vez que ouvi, é que não destoa nada no meio da 8 e da 10.
10 - Take 5
Ora aqui está a faixa de que todos falam! A minha supra-favorita, também.
Esta música envolveu muita especulação por causa do seu final assustador. É que a Utada resolveu acabar com ela de forma drástica, com um final abrupto. Supostamente porque o tema da música é a morte. Quem saberá… A início custou-me um bocado acabar uma música brilhante da forma que ela escolheu, mas entretanto já me consegui habituar à ideia de se seguir a Boku wa Kuma. O efeito é, no mínimo, interessante.
Sobre a música em si, e passando o final à frente, tem algumas semelhanças com a Passion, mas ao mesmo tempo é tão diferente. É tão mais libertadora… e ao mesmo tempo melancólica. Esta dualidade existe praticamente em todas as músicas, mais uma vez concordando com o “tema” do álbum e o seu título, e é sobretudo graças ao sintetizador de fundo, que alterna constantemente entre 3 tons diferentes, que isso é possível.
O refrão tem um ar muito mais positivo, mas na verdade, pela tradução das lyrics que li, trata de um certo apelo à morte. O estado da morte, o que é que isso tem de positivo. A cantora já referiu algumas vezes o seu interesse e despreocupação pela morte, e portanto, especulação minha, decidiu explorar o assunto nesta música.
Melhor faixa do álbum, na minha opinião.
11 - Boku wa Kuma
Bem, isto é a “piada” do álbum. É a faixa mais fofinha, sem dúvida, mas inserida num álbum fica tão non-sense. Porém, é esse o objectivo.
O título traduz-se como “Eu sou o Urso” e a origem da música está relacionada com Kuma-Chang, um urso gigante de peluche que foi oferecido à cantora e que esta gosta muito, a ponto de o incluir, post sim, post não, no seu blog. Então, pela altura do Outono de 2006, a NHK pediu-lhe que fizesse uma música para o Minna no Uta, um “programa” de 5 minutos onde são apresentadas músicas para crianças, músicas de novos artistas, entre outras. Esta, obviamente, é uma música para crianças, que, talvez por isso mesmo, é um dos singles deste álbum que mais vendas obteve. Recomendo que vejam o vídeo que a acompanha, pois é ainda mais fofo que a música.
A música, por acaso, até é bastante catchy e não poucas foram as vezes que me encontrei a murmurar o refrão incontrolavelmente.
12 - Niji-iro Bus
Teoricamente, esta é a última música do álbum, pois a faixa seguinte é considerada bónus. Dá seguimento à atitude mais “infantil” aberta por Boku wa Kuma e é, no entanto, outra das minhas faixas favoritas.
Muita gente queixa-se da duração ser muito extensa (5:50), mas para mim está bem assim, pois o refrão é altamente agradável de se ouvir e a partir dos 3 minutos são só positive vibes até ao final.
O tipo de voz encaixa-se no infantil/descontraído, o ritmo encaixa-se no hip-hop/r’n’b, e o resto são sintetizadores e piano. Ou seja, amor completo.
13 - Flavor of Life (Bonus Track)
Bem, não há muito para falar sobre esta música. Não vem propriamente com nada a seguir à Niji-iro Bus, e é, muito simplesmente, a Flavor of Life -Ballad Version-, mas mais fast-paced e com sintetizadores e batidas por todo o lado. Não lhe retiro valor, no entanto, pois sou capaz de gostar mais desta versão do que da outra. Mas o essencial já foi falado.
E assim acaba o Heart Station. Espero que, de uma forma ou outra, concordem com as minhas opiniões, pois isso significa que terão acabado com um sorriso na cara!
Penso que, de resto, está tudo falado quanto ao álbum. É uma recomendação garantida, para todos os apreciadores de pop no geral. Uma decepção para alguns fãs dos primeiros álbuns, mas sem duvida uma porta bem aberta para novos fãs.
Agora só resta esperar que o anunciado 2º álbum internacional sejam tão bom quanto este, e que venha a conhecer mais sucesso que o Exodus. Caso estejam curiosos, alguns dados apontam para que o álbum ainda seja lançado este ano… who knows!
Também existem rumores de uma possível tour japonesa para promover este álbum. Veremos, veremos.
We Fight the Blues!
PS - E às tantas… só terminei a review no dia 20. Bu-uh~
PS 2 - (13 de Março de 2009) Opinião colocada no dia 20 de Março de 2008 no blog Ten no Koe, aqui.
Etiquetas: 2008, Heart Station, Hikaru Utada, Música
Onde é que eu já vi isto?
Seca.
tl;dr