Araragi Express

Depois da minha primeira aula de código, hoje à tarde, pus-me a ler o manga Araragi Express. Composto por 8 volumes, foi lançado em 1997 pelo famoso mangaka Kaiji Kawaguchi. Peguei nele porque um certo evento levou-me a lembrar que tinha lido um artigo sobre este manga, há que tempos, numa revista espanhola que comprava na altura e tinha ficado bastante interessado. Devo dizer que foi o primeiro manga completo que li, num ápice, no PC.

Na verdade, mesmo tendo 8 volumes, lê-se bastante rápido por três motivos: cada capítulo tem cerca de 20 páginas; mais acção, menos conversa; ritmo bastante rápido e cativante.

A história centra-se no mundo dos Yakuza, a máfia japonesa, começando no Japão e estendendo-se para o Vietname. Fala-nos de Araragi Riuichi, um estudante de Direito que estava praticamente a terminar o curso quando se cruza com um bandido na rua. De modo a tentar resolver a situação, acaba por matar o bandido a pedido deste, o que, no final, o prejudicará mais do que ele pensava, pois a polícia não acredita que aquilo se tenha passado como ele realmente conta. Fica então forçado a 3 anos de trabalho comunitário e liberdade condicional.
Porém, isto é só o começo dos seus azares. Numa noite mais tarde, vê-se envolvido num problema entre imigrantes ilegais e a Yakuza. E é aí que a sua vida muda radicalmente, tomando um rumo que o vai levar a ser uma figura importante dentro das máfias do distrito.

Isto é a premissa que guiará os 8 volumes de Araragi Express. É juntar-lhe violência em doses interessantes, muito giri, crimes , imigrantes ilegais, e uma dose muito breve de romance algo confuso e pouco claro.
E indo por esse caminho, posso já referir que devem adicionar à mistura um dos finais mais bruscos e inesperados de sempre (não chega ao nível do manga de Dragon Ball, claro). Provavelmente houve um motivo para o autor ter de concluir a série rapidamente, algum problema entre ele e a revista em que estava a publicar a série, talvez. O mais certo é não se conseguir obter essa informação facilmente, passados mais de 10 anos.

Um dos aspectos que mais gostei na série e que me fez continuar a ler, foram as personagens. Note-se, não são figuras com personalidades muito extravagantes e complexas. São, porém, personagens com caracteres bem definidos e coerentes, algo que eu valorizo bastante. Muitas vezes vêem-se personagens excessivamente trabalhadas que não contribuem propriamente para a história/ambiente como um todo. E neste caso, acontece o contrário. À falta de melhor expressão, todos se encaixam bem e nunca destoam, mantendo o seu papel bem firme e vinculado.

Outra coisa que também me agradou foram as poucas vezes em que me questionei sobre “porque é que isto aconteceu” ou “como é que aquilo é possível”. Se chegaram a ler o meu comentário sobre o Twilight Princess devem saber já que também é outra das coisas que valorizo numa história. Não há pior coisa a acontecer, quando me tento concentrar numa narrativa, do que um ou outro momento em que tenho de parar para me questionar sobre a atenção ao detalhe do autor. “Será que isto é propositado ou simplesmente um erro e falha de atenção?” Pode-se dizer que, neste caso, o autor tinha tudo sobre controlo quando fez a história. O único detalhe que me fez alguma confusão foi o facto do Araragi começar a história com uma constituição física normal e ao longo da série ir ganhando cada vez mais músculos e uma estatura mais alta e imponente. Mas deduzi que fosse do trabalho comunitário duro que teve de fazer.
No geral, tudo faz sentido e não se sente uma grande ambição por tentar fazer algo maior do que aquilo que as páginas do manga podem conter. E mesmo que isso signifique que não estamos perante uma obra de arte, não deixa de significar que se trata de uma boa obra e uma pela peça de entretenimento.
Mencionando aquilo que senti após ler todos os volumes: “Foi um bom filme de acção.”

A arte está muito boa, para um seinen (manga para leitores mais maduros) de acção e violência. Bastante realista e também muito “limpa”, faz, em alguns momentos, lembrar o estilo de Naoki Urasawa. Tenho de referir, também, que os padrões utilizados para as roupas e tecidos são absolutamente fantásticos, apresentando tendências kitsch-havainas e também pneu-do-carro ou sola-do-sapato. Talvez seja mesmo aquilo que os membros da máfia vestem para se sentirem confortáveis perante os seus superiores, mas isso nunca saberei ao certo.
Um pormenor que reparei foi a ausência de tatuagens pelo corpo em geral, o que é de estranhar visto que em certos filmes sobre Yakuzas que vi, os membros estão sempre cheios de tatuagens das quais se orgulham muito e fazem questão em mostrar.

Reforçando a ideia que quis transmitir, a verdade é que gostei de ler Araragi Express. O aspecto de filme de acção dos anos 80, confesso, foi uma das facetas do manga que mais me agradou e me fez querer ler, porque eu, tal como muita gente, sou fascinando pelos produtos de entretenimento dessa época. E como tal, acho que, se algum dia, mais precisamente à tarde, estiverem com vontade de ver um filme de acção bem feito e pouco complexo, ponham de lado as 24 frames por segundo e leiam antes estes 8 volumes de imagens estáticas. Lêem-se muito bem.

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