Está… calor. E isso concilia-se tão bem com o meu stress pós-descarrilamento. Sim, é verdade, descarrilei há coisa de 3 ou 4 dias, quando terminei o último semestre do último ano da Licenciatura em Cinema, na Universidade da Beira Interior. Como não pretendo fazer Mestrado de seguida, já não tenho os corrimões que a sociedade gentilmente colocou no rumo da minha vida, assim que nasci. Quero eu com isto dizer… que estou meio perdido.
Enquanto estamos a participar no Ensino, neste caso como estudantes, sem nos apercebermos muito bem somos conduzidos, com possibilidade de não o sermos também, por um percurso bastante confortável. Conduzem-nos a conhecer os primeiros amigos, a conhecer assuntos pelos quais nos possamos interessar, a manter os nossos dias ocupados, a termos os nossos primeiros dramas, a termos os nossos dramas seguintes, a ter interesses amorosos, etc. No fundo, dão-nos algo a que possamos chamar de vida.
E quando isso acaba?
Bem, quando acaba continuamos com as mesmas faculdades que fomos aprendendo a manejar ao longo do tempo. Continuamos capazes de inventar dramas pessoais, capazes travar amizades e muito mais até. E grande parte desse “muito mais” vem do facto de, agora, não termos aquelas barreiras a que anteriormente chamei de “corrimões”. Eu não sou obrigado a interagir e integrar-me com a sociedade, essa fase acabou.
Talvez seja suposto que tivesse surgido em mim, e em qualquer pessoa, durante o tempo de Ensino, uma necessidade de estar constantemente integrado na sociedade. Por outras palavras, que houvesse uma necessidade de me integrar em novas “escadas”, cada uma delas com os seus “corrimões”. Um bom exemplo disso seria se eu me dignasse a levantar a perna para o degrau que inicía a escada do Emprego. Feito isso, poderia eu continuar com a história dos dramas, amizades e por aí fora.
Mas não estando apoiado em corrimões deste tipo, sinto uma grande pressão em fazê-lo. Lá está a tal necessidade que falei. Eu sinto que devia fazer isso, mas estou perdido. Pois existem tantas escadas e nenhuma delas chama por mim. Talvez porque as escadas não falam, mas vocês percebem o sentido figurativo. Elas não chamam por mim, tenho de ser eu a decidir, a fazer a escolha. Mas a escolha é difícil.
Sobretudo com este calor. Este calor que falei no início. Ajuda-me tanto a ter mais preguiça e vontade de regressar à toca onde nasci, e não é disso que preciso. Mesmo nada.
Já tenho os meus planos, claro. Muito vagos aindam, claro.
Ando a tratar das coisas para começar a tirar a carta de condução de ligeiros. Vai ser uma forma boa de aproveitar o tempo morto das férias em vez de sobrepor essa tarefa com actividades que requerem a minha máxima atenção. Como tal espero conseguir tirá-la em 2 ou 3 meses. E espero também, talvez não muito, que esta escada me sirva de algo. Nem que seja apenas para me apoiar e dar-me uma direcção. Pois quando estamos ocupados com alguma coisa, a nossa vida ganha mais significado e ficamos mais dispostos a continuar. Eu podia ter mais fé nisso, no entanto, mas ainda tenho alguma.
Para além disso, ando também a escrever uma história. Infelizmente não me tenho podido concentrar nela plenamente, pois ainda tenho alguns assuntos da universidade para terminar. Entregar o projecto final, fazer um exame e pouco mais. Parecendo que não, essas coisas não me têm dado paz de espírito nos últimos dias, para além da, inevitável, falta de paz que advém desta mudança de fase na minha vida. Dessa não se pode fugir mesmo. Portanto deposito algumas esperanças em que seja possível estar mais calminho quando a universidade e a Covilhã estiverem, definitivamente, postas de lado.
Por falar na Covilhã. Amanhã à noite, comboio amigo… espero não te ver muito mais vezes num futuro breve e distante.
Este foi o primeiro post “a sério”. Acho que não correu assim tão mal.
Antes de dormir vou ver se leio o primeiro conto do livro de contos “A Rapariga que Inventou um Sonho”, de Haruki Murakami. Acabei o “Sputnik, Meu Amor” anteontem, portanto estou muito no espírito do autor e quero mais. É também uma boa ajuda para me inspirar, em termos de gramática e teorias da escrita, para a tal história que ando a escrever, sobretudo porque o Murakami reflecte bastante sobre a posição do escritor, o que é óptimo para quem nunca pensou muito sobre isso.
Desilude-me um pouco, porém, que ele trate alguns temas e tenha algumas ideias dentro da mesma onda daquilo que eu quero para a minha história. Ser original hoje em dia é tanto objectivo como utopia.
Termino por aqui. Boa noite.
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